10 Motivos Para Odiar os Bares da Moda (em segredo)

[Uma tradução do post originalmente publicado por Wait But Why aqui]

Na maioria as cidades pelo mundo afora, bares representam o âmago da vida social e andam de mãos dadas com a cultura jovem – algo estranho, já que o diagrama realista é este:

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A palavra “bar” pode remeter a uma variedade de lugares – a regra básica é, quanto mais descolado for o bar, pior experiência ele proporcionará. No final de semana é pior ainda, os bares uber-cools, super populares, escuros e com música alta tornam-se verdadeiros templos do sofrimento.

O problema começa porque na nossa imaginação os tais bares da moda são lugares divertidos. O cara pensa: “Esse findi vai ser ducaralho, vou beber todas na balada!” e tal pensamento nunca vem seguido de, “Peraí, acabo de me lembrar que bares são lugares horríveis de se ir no final de semana.”

Após anos de sofrimento acidental de bilhões de pessoas, chegou a hora de analisarmos em profundidade esta prática voluntária e examinarmos o que, de fato, significa ir a um bar da moda.

Vamos começar do começo:

É noite de sexta, você está animado. Você se apronta – está vestido apropriadamente, seus amigos também estão vestidos apropriadamente e vão todos ao local apropriado: o bar.

Ao chegar, se deparam com uma cena conhecida –

 

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Vamos parar por um momento e entender o que se passa por aqui.

Se quisermos entender o raciocínio dos bares da moda, basta entender o raciocínio de todos os outros estabelecimentos – “agrade os clientes e eles voltarão” – só que ao contrário.

É o que eu chamo de estratégia Você é um Nada. Ser forçado a ficar em uma fila como uma tartaruguinha adestrada – muitas vezes no frio e até mesmo quando o bar está vazio – isso é só um gostinho da estratégia para te mostrar que Você é um Nada.

Enquanto você espera, observa diversos grupos de meninas irem até a frente da fila sem esperar, o segurança levantando a corda e deixando elas passarem. Na sua frente. Porque Você é um Nada.

Quando finalmente chega sua vez, você notará que não há uma placa com o nome do bar, porque o bar adora observar seus clientes-de-nada passando trabalho para encontrá-los.

Daí chega a hora de mostrar sua identidade pra um sujeito que se não foi o maior babaca do seu colégio, foi o maior babaca do colégio de alguém.

Daí ele empurra a sua bundinha de Nada para o próximo estágio, mostrando para todo mundo que você desesperadamente quer ser cliente do bar, aceitando inclusive pagar $10 só para entrar. O toque final fica por conta do humilhante carimbo que ele vai tacar na sua mão – sem outro motivo, simplesmente porque pode.

Algum desavisado que estivesse observando, ao testemunhar tudo que se passou, presumiria que você está prestes a adentrar um paraíso utópico de prazeres. E ficaria surpreso ao te ver entrar nisso:

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No primeiro momento em que se entra em uma cena destas, sente-se um misto de terror e desespero. É um caldeirão do inferno – volume alto demais, escuro e cheio, sem nenhuma possibilidade de que algo de divertido ocorra por ali.

Não tenho certeza de quando ou por que isso aconteceu, mas em algum ponto na história ficou decidido que a abominável combinação volume alto/escuro/cheio seriam elementos essenciais de uma balada boa. [1] Talvez isso tenha começado porque as casas noturnas tentavam imitar a vibe dos concertos, e depois os bares começaram a imitar casas noturnas para parecer parecer mais descolados – não tenho certeza. Mas o resultado final é um lugar que não leva em consideração o conceito de humanidade, e lá está você no meio disso tudo.

[1] Em 2012, o NY Times descobriu que bares de Nova Iorque tornavam-se progressivamente mais alto com o passar dos anos, a tal ponto que agora com frequência atingem o perigoso ponto acima de 100 decibéis, semelhante ao barulho de uma motosserra. Por quê? Porque estudos clínicos demonstram que, quanto mais alto o volume, mais os clientes bebem.

Bom, agora que você já entrou – qual o próximo passo?  Vamos dar uma olhada nas diversas atividades das quais você participará durante a sua passagem pelo bar:

Atividade 1) Pegar umas bebidas

Depois de pendurar seu casaco em um gancho na parede e dar adeus a ele pela última vez, chegou a hora de pegar um drink. Você foi o primeiro dos seus amigos a passar pela porta, então está à frente do seu grupo que tenta ir passando pelo povo, o que significa que você gastará os piores $54 que um ser humano pode gastar em uma rodada de bebidas, já que ninguém irá lembrar daquela primeira rodada. Mas pegar a rodada é o objetivo final – antes você ainda tem que descobrir como passar pelas três camadas de pessoas que também tentam pedir uma bebida:

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É uma parada nojenta. E dependendo do seu nível de agressividade e sorte, fazer a pior compra da sua vida pode levar de 3 a 20 estressantes minutos. Eu estimo que tenha passado pelo menos o equivalente a uma semana da minha vida projetando minha cabeça para frente, encarando o barman com um olhar fulminante e ainda assim não conseguindo fazer contato com ele.

Finalmente voltando para sua rodinha de amigos com as bebidas, está na hora de começar a atividade básica de qualquer bar –

Atividade 2) Ficar lá parado sem falar com ninguém

Ficar lá parado sem falar com ninguém é a principal atividade de qualquer noite na balada. Se olharmos distraidamente, Alto/Escuro/Cheio dão a impressão de que todo mundo no bar está se divertindo e socializando. Mas na próxima vez que entrar em um, olhe bem ao redor e verá uma alta percentagem de pessoas como este cara:

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Há 30 minutos atrás este mesmo cara estava jantando com seus amigos – conversando, rindo, sentado confortavelmente. Mas agora, ufa, a verdadeira diversão começou.

Atividade 3) Segurar alguma coisa

Quase tão onipresente quanto a Atividade 2, segurar alguma coisa – normalmente uma bebida gelada – é uma atividade popular em bares no mundo todo. O que todo mundo ignora é que segurar uma bebida gelada é uma merda. A) Segurar qualquer coisa por um período prolongado é uma merda, B) Uma bebida gelada e molhada é ainda mais desagradável de se segurar e C) Como os bares são estupidamente cheios, seu cotovelo vai ser empurrado a cada 30 segundos, continuamente derramando a bebida na sua mão e pulso. Se você estivesse em um restaurante e alguém te pedisse para segurar uma bebida a alguns centímetros da mesa e enquanto usa o lugar, você iria embora.

Mas no bar infelizmente descansar a bebida não é uma opção, pois segurar nada em um bar deixaria suas mãos livres, o que tem o efeito colateral de te alertar para o fato de que você está lá parado sem falar com ninguém, te causando pânico. A solução é rapidamente segurar outra coisa, geralmente seu telefone, o que te deixa invisível novamente.

Atividade 4) Soltar gritinhos para mostrar para todo mundo que você está se divertindo

Desesperados para perpetuar a narrativa do “Que divertido” a qual fomos jurados, às vezes se ouve alguém gritar alguma coisa direcionada a ninguém específico. Eles não estão gritando uma palavra de verdade – é alguma coisa nada a ver tipo um “Woooh” ou “Ohhh!” Comparado às outras atividades, este é provavelmente o momento mais divertido da sua incursão ao bar.

Atividade 5) Gritar na cara de alguém

Daí chega aquele momento em que você decide interagir com os seus amigos, afinal, teoricamente vocês estão curtindo uma noite legal juntos. Não existe a mínima chance de cativar outros com seu bom papo, então a conversa é crua e básica – eu estimo que em 20 minutos de conversa de bar se alcance o equivalente a 1 minuto de conversa em um restaurante.

Talvez você esteja se sentindo ambicioso e decida abordar estranhos. Esta é normalmente uma experiência frustrante para ambos os lados da interação, e quase sempre termina em algo infrutífero. A ironia é que esta vibe Alto/Escuro/Cheio do caldeirão do inferno existe primariamente para pessoas solteiras que querem conhecer pessoas solteiras, mas os bares não conseguem desempenhar bem nem este que seria seu papel primário. Bares são lugares horríveis para solteiros encontrarem alguém. Já é difícil enxergar a cara das pessoas, que dirá as sutis expressões faciais que dão dicas sobre suas personalidades. E como está muito cheio e difícil de se escutar qualquer coisa, não vai rolar de se entrosar com os outros, restando apenas técnicas agressivas para iniciar-se uma conversa (ex. abordar estranhos) como a única maneira se tentar começar qualquer coisa.

Ao iniciar uma conversa com uma pessoa nova, você passará 6 minutos tentando sair daquelas primeiras nove linhas de conversas preliminares e ainda terminar sem a mínima ideia se essa pessoa tem senso de humor – digamos que não é o lugar ideal para se desenvolver uma química.

 

Atividade 6) Dançar

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Atividade 7) Chorar

Muitas pessoas choram nos bares.

Atividade 8) Banhar-se nos mais batidos estereótipos de gênero

De meninas furando a fila ou ganhando ingresso cortesia a caras pagando bebidas para meninas que conheceram há oito segundos atrás, os bares são uma arena moderna de estereótipos de gênero que atravessaram as décadas. Discriminação casual e misoginia requintada florescem e prosperam por aqui. Sexismo e desigualdade entre os sexos são temas de interesse no momento, e ainda assim ninguém parece se importar de voltar para 1953 quando entra em um bar.

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Atividade 9) Tomar shots para amenizar todo sofrimento

Shots não são gostosas. Quem falar o contrário está mentindo.

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Atividade 10) Rolar na sujeira

Bares são ótimos lugares para se absorver toda a imundície coletiva da humanidade. Chãos grudentos, vômito, estranhos se beijando, todo mundo soltando bafo na nuca de todo mundo, o pessoal do bar mexendo no dinheiro e depois colocando um limão no seu drink – é um nível de qualidade de vida que só poderia ter sido criado por bêbados e no qual somente bêbados conseguem sobreviver. O exemplar mais nojento é o banheiro dos homens, onde 120 caras bêbados despejam ¼ do seu mijo no chão – o que é como se 30 homens mijassem seu mijo inteiro no chão do banheiro, e você vai pisar lá pelo menos duas vezes ao longo da noite.

 ______________

No desfecho desta fossa das piores qualidades humanas, em meio a dois bebuns que descontam suas frustrações sexuais saindo no soco, chega a hora de dizer tchau.

De súbito lembrando que comida existe, você se reanima e caminha para a saída – mas não sem antes passar, claro, por aquele povo de fim de festa: hordas de tarados fazendo tentativas frenéticas para ver se levam alguém para casa. É com agradável surpresa que você encontra o seu casaco pendurado no mesmo lugar que deixou. Mas para compensar, lógico, você perde a comanda.

Daí acabou. Quer dizer, quase…

Tem um último passo crítico – o momento que propagará a espécie notívaga para a próxima noite: você tem que se convencer que a noite foi super divertida.

É claro que bares de som alto, escuros e cheios não são divertidos. Mas beber geralmente é divertido – não importa aonde. Vá bêbado para um mercadinho com um bando de amigos, e você irá se divertir. Ande de ônibus pela cidade – se você estiver bêbado, provavelmente irá se divertir. Se você acha que se divertiu no bar, o que na verdade aconteceu foi que você ficou bêbado e nem o bar conseguiu arruinar sua noite. Se uma coisa é divertida de verdade, deveria ser divertida mesmo quando se está sóbrio, e bares não são divertidos quando se está sóbrio.

Algumas pessoas nem se dão conta que odeiam bares, e para estas pessoas o auto-convencimento é um processo automático que se desenvolve ao longo da noite. Para outros, a auto-sugestão é um pouco mais forçada e leva uma ou mais semanas para se consumar. Algumas pessoas nunca conseguirão realizar essa distorção da própria memória, mas a maioria dos seus amigos conseguem, de tal modo que precisarão dos bares para outro propósito – evitar o tal ‘medo de ficar por fora’ – e acabarão mesmo assim retornando ao bar.

Temos aqui um problema sem nenhuma solução rápida – e até que as coisas mudem, as ruas boêmias ficarão tomadas de Nadas, pacientemente esperando sua vez de entrar.

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